
Por Suelen colunista - suelen.colunista@teste.engeplus.com
Em 30/01/2026 às 13:57 - Atualizada há 7 meses
Apolônia. Ainda adolescente, ela e os quatro irmãos buscavam água para o consumo de casa, enquanto sua mãe, Adelina Tassi da Silva, usava o rio para lavar roupas atividade da qual tirava parte do sustento da família.
“Morávamos próximo ao Morro Cechinel e caminhávamos cerca de 300 metros até chegar ao rio. Mas a fonte ficava mais acima, então precisávamos subir mais um trecho para alcançá-la. Era uma nascente; havia outra fonte onde pegávamos água para beber, cozinhar, para tudo. Sair com baldes de ferro e voltar com eles cheios fazia parte do nosso dia a dia".
Apolônia da Silva, moradora de Criciúma que chegou a utilizar a água do rio Criciúma quando ela ainda era limpa
Apolônia lembra não apenas das idas com os irmãos em busca de água, mas também dos muitos momentos vividos às margens do rio Criciúma.
A moradora de Criciúma afirma que, na época, a água era tão limpa que não era necessário fervê-la ou adicionar qualquer produto. “Não tinha nenhum bichinho, não tinha nada. Era limpa. Algo de que me lembro muito bem é que pegávamos o coração dos cachos de banana e usávamos para tomar água; dava um sabor diferente e ficava muito gostoso”, conta.
A legislação municipal e estadual define claramente como devem ser conduzidas as construções nas margens do rio. Em áreas urbanas consolidadas (AUCS), devem ser respeitadas as faixas de preservação estabelecidas pela Lei Municipal nº 8.644/2024, embasada no diagnóstico feito pela Satc, que também rege a regularização de imóveis existentes. Já em áreas rurais ou em situações não previstas na lei municipal, aplica-se o Código Florestal (Lei nº 12.651/2012), que exige uma faixa mínima de APP de 30 metros.
No entanto, Aléssio aponta limitações na interpretação dessas normas. “Para muitos, as APPs são espaços intransponíveis, que deveriam ser cercados e isolados. Mas em outros lugares, vemos projetos inteligentes de urbanização, como parques lineares, que integram o ser humano à natureza, promovendo preservação e lazer ao mesmo tempo. Infelizmente, isso ainda não é permitido em Criciúma”, afirma.
O processo de licenciamento segue o mesmo protocolo de qualquer obra, mas, internamente, os projetos passam por análise de setores especializados que emitem pareceres específicos sobre o rio. “Na análise de novos projetos, sim, há rigor suficiente, pois todos os setores relacionados ao rio são ouvidos. No caso de obras existentes, não sei exatamente como funciona a fiscalização”, comenta.
Sobre o futuro da ocupação urbana nas margens do rio Criciúma, Aléssio vê um cenário de tensão entre riscos históricos e tendências de sustentabilidade. “O grande desafio é migrar da visão de ‘rio-esgoto’ ou ‘rio-barreira’ para uma perspectiva de ‘rio-eixo de desenvolvimento sustentável e lazer’. É uma mudança que depende da requalificação urbana e da conscientização coletiva”, pontua.
Apesar de todas as discussões técnicas, projeções e desafios que cercam o futuro do rio Criciúma, ainda existem memórias que insistem em manter viva a lembrança de quando suas águas eram parte do cotidiano. Entre essas histórias está a da Apolônia da Silva, de 80 anos, que, assim como muitas das primeiras famílias que viviam às margens do rio, enxergava nele não um problema a ser resolvido, mas uma presença essencial de fonte de vida, convivência e sustento.
Leia mais sobre:
cresciuma.
Você pode enviar sugestões e comentários para o email suelen.colunista@teste.engeplus.com